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	<title>Sleeping Ocean &#187; vida</title>
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	<description>A dormir num canto qualquer</description>
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		<title>Lisboa</title>
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		<pubDate>Sun, 28 Mar 2010 20:44:43 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Cláudia</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Para quem vive em Lisboa, ou lá perto, tudo é fácil. &#8220;Apetece-me ir ao cinema&#8221;, &#8220;Vamos!&#8221; &#8220;Gostava de experimentar algo novo&#8221;, &#8220;Arranja um daqueles pacotes de experiências.&#8221; &#8220;Queria comida do país XPTO, confeccionada à moda dos nativos&#8221;, &#8220;Há um bom restaurante na rua X, fazem tudo isso que tu queres.&#8221; Só é preciso ter dinheiro. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:justify">Para quem vive em Lisboa, ou lá perto, tudo é fácil. &#8220;Apetece-me ir ao cinema&#8221;, &#8220;Vamos!&#8221; &#8220;Gostava de experimentar algo novo&#8221;, &#8220;Arranja um daqueles pacotes de experiências.&#8221; &#8220;Queria comida do país XPTO, confeccionada à moda dos nativos&#8221;, &#8220;Há um bom restaurante na rua X, fazem tudo isso que tu queres.&#8221;</p>
<p style="text-align:justify">Só é preciso ter dinheiro.</p>
<p style="text-align:justify">E este custa a ganhar. Mas em Lisboa também é fácil encontrar onde o receber. Com mais ou menos esforço, toda a gente consegue uma empresa que lhe forneça umas moedas por mês, em troca do seu suor. Às vezes, as pessoas passam os dias a trabalhar em locais desagradáveis, com colegas com quem não se identificam e chefes que não as respeitam. Por vezes, não se esforçam para encontrar algo melhor. Mas nem sempre é assim; muitos não têm outra hipótese. E o dinheiro é preciso, para manter um estilo de vida saudável.</p>
<p style="text-align:justify">Tão saudável que, depois de um dia de trabalho cheio de stress, finalmente chega a liberdade; para entrar num transporte público atolado e malcheiroso, com pessoas a falar como matracas, e crianças aos gritos; ou enfrentar filas de trânsito intermináveis. E, por fim, chegar a casa, onde há um recanto sossegado para descansar. Isto se não houver filhos. Ou vizinhos barulhentos.</p>
<p style="text-align:justify">No entanto, como se tem algum dinheiro no final do mês, há pequenos luxos que são possíveis. Se calhar vale a pena. Mas não para mim.</p>
<p style="text-align:justify">Apesar de falar na cidade de Lisboa, haverá outras em que a vida também corre deste modo. Falo desta porque é a que conheço.</p>
<p style="text-align:justify">E é uma cidade bonita. Sim. Quem me dera ver apenas o lado bom dela. E talvez assim não quisesse tanto deixá-la.</p>
<p style="text-align:justify">Deixá-la para descobrir um local que me dê paz de espírito. Gostava de chegar a casa sem sentir a cabeça a rebentar, por causa da viagem que fiz do trabalho até aqui. Poder andar com calma e apreciar a paisagem, durante o caminho para lá.</p>
<p style="text-align:justify">Mas também era preciso que houvesse paisagem. E não me importava que esta fosse constituída por um monte de vacas a pastar trigo seco, porque até isso é mais agradável que os prédios feios e descuidados, que desfilam todos os dias perante os meus olhos.</p>
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		<title>Egoísmo</title>
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		<pubDate>Wed, 27 Jan 2010 02:45:14 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Cláudia</dc:creator>
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			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:justify">Desde os meus primeiros anos de escola, lembro-me de ouvir várias vezes que me devia preocupar primeiro comigo, e só depois com os outros. O mais importante era o que eu queria. Qualquer opinião além da minha ficaria para segundo plano. Ninguém tinha direito de influenciar as minhas decisões a não ser eu própria.</p>
<p style="text-align:justify">E isto que disse, muita gente ouviu. É por isso que, em qualquer altura do vosso percurso escolar, terá aparecido um colega que não deixou a professora adiar um teste, porque tinha estudado muito, ainda que o resto da turma estivesse aflita. Ou aquele que não emprestou os apontamentos, por medo que o superassem.</p>
<p style="text-align:justify">Depois crescemos e começam a surgir as temáticas da compreensão e da solidariedade para com o outro. Mas na vida adulta continuam a aparecer os chefes que não pensam no bem-estar dos colaboradores e os colegas que passam por cima dos outros.</p>
<p style="text-align:justify">Se calhar a cultura do egoísmo já está muito metida nas cabeças, sei lá&#8230; Nos últimos tempos, parece-me que falta calor humano nas interacções sociais. Poucas pessoas tentam esboçar um pouco de simpatia quando se dirigem a outro, se estiverem cansados ou com algum problema, mesmo que seu o interlocutor não seja um interveniente na situação incómoda. Também vejo pouco esforço para acreditar no desenvolvimento positivo de alguém, ou da sociedade em geral.</p>
<p style="text-align:justify">Porquê? Porque é difícil acreditar e confiar nos outros? Claro que há quem não consiga aprender, quem seja calculista, quem não veja além do seu nariz&#8230; Contudo, se conseguimos distinguir estes traços de personalidade, é porque os podemos opôr a algo contrário, que também existe. E agir como se toda a gente tivesse má vontade é, precisamente, cultivá-la. Porquê então este conformismo geral?</p>
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		<title>Precipício e lugar-comum</title>
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		<pubDate>Mon, 17 Aug 2009 02:22:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Cláudia</dc:creator>
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			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:justify">Durante o percurso de vida de um ser social, há uma altura, ou mais do que uma, em que as circunstâncias são tão sufocantes, que o empurram cada vez mais para a beira de um precipício, que se apresenta como o único meio de lhes escapar. De um lado, o esquecimento, onde as suas preocupações não existem de todo. Do outro, as responsabilidades, as culpas, as mágoas. Quanto mais tempo esta personagem se detém à beira do abismo, menos são os passos que a separam de tudo aquilo que a impele a saltar.</p>
<p style="text-align:justify">No entanto, e ainda bem, a maior parte das pessoas decide não o fazer, sabendo que, embrulhadas em todos os medos, estão também aquelas coisas que as confortam e que guardam um potencial para as fazer, digamos&#8230; felizes.</p>
<p style="text-align:justify">Há mais que uma possibilidade inerente a esta escolha: ora, a personagem pode escolher ficar no mesmo sítio, sendo eternamente pressionada para saltar e para ficar, presa entre os dois mundos; uma segunda hipótese será entrar para o meio dos problemas e envolver-se neles, sem os aceitar, mas sem os combater; a terceira, por conseguinte, será lutar contra eles e vencê-los, por mais que isso a enfraqueça, pois é o único caminho para conseguir alcançar a tranquilidade, de que estes a estão a escudar.</p>
<p style="text-align:justify">Era sobre as duas últimas hipóteses que me queria debruçar, uma vez que são algumas as pessoas com quem convivo que não vivem felizes, apenas porque escolheram o segundo caminho. São pessoas que, depois de terem estado em frente ao precipício, decidiram entrar no meio dos problemas e não quiseram enfrentá-los. Não creio que seja por medo, mas apenas porque vivem na ilusão de que eles fazem parte da sua vida, e não podem ser destruídos. Refiro-me ao conformismo, que cria frases como &#8220;Se as coisas são assim, não posso fazer nada&#8221; ou &#8220;Não tenho sorte nenhuma&#8221;.</p>
<p style="text-align:justify">Ora, estas pessoas apresentam comportamentos repetitivos em áreas específicas das suas vidas, que acabam por conduzi-las novamente ao precipício. E, pelas mesmas razões que da primeira vez, voltam a seguir a segunda opção, e, eventualmente, terminam outra vez à beira do vazio. O ciclo repete-se. Os motivos, sempre iguais.</p>
<p style="text-align:justify">No que toca a quem funciona assim, as opiniões dos que estão por fora da situação, podendo vê-la claramente, não contam. Quando estas opiniões são verbalizadas e atingem um nervo na pessoa em questão, a memória é selectiva e apaga-as: nunca querem acreditar que estão dentro de um ciclo, e têm medo do que é preciso para o quebrar.</p>
<p style="text-align:justify">Podemos até gritar-lhes que parem, mas parece sempre tudo inútil. A única coisa que resta, quando gostamos destas pessoas, é a esperança de que um dia vejam mais longe, decidam de vez fazer o que é certo para a sua sanidade mental, pois um ciclo de frustrações não pode levar a lado nenhum.</p>
<p style="text-align:justify">Enfim, pede-se apenas que gritem um &#8220;BASTA, PUM BASTA! Eu valho MAIS que isto!&#8221;</p>
<p style="text-align:justify">Senão, não dá.</p>
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		<title>Escrever</title>
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		<pubDate>Mon, 08 Dec 2008 22:48:52 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Cláudia</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Ultimamente, tem-me apetecido escrever&#8230; mas não sei bem o quê. Já perdi a conta às vezes em que abri a página de escrita deste blog, sem conseguir soltar uma única palavra. Tenho vontade de dizer algo, mas na verdade não sem bem o que é. Os pensamentos fervilham-me na mente, mas a inspiração escasseia. Acho [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:justify">Ultimamente, tem-me apetecido escrever&#8230; mas não sei bem o quê. Já perdi a conta às vezes em que abri a página de escrita deste blog, sem conseguir soltar uma única palavra.</p>
<p style="text-align:justify">Tenho vontade de dizer algo, mas na verdade não sem bem o que é. Os pensamentos fervilham-me na mente, mas a inspiração escasseia. Acho que já nem me lembro como se escreve um texto do início ao fim. Para conseguir recordar, precisava de um momento de reflexão, mas receio não ter tempo para ele. E por causa disso, começo a perder uma parte de mim&#8230;</p>
<p style="text-align:justify">Contudo, não adianta lamentar-me. Não ter tempo para as coisas de que gostávamos mais de fazer é uma parte importante no crescimento. Resta-me, portanto, esperar que o futuro elimine este travo amargo que me está preso na garganta. E que venham dias, senão melhores, pelo menos mais serenos, que me permitam pensar nas coisas que perdi e nas que ganhei, bem como em todas as mudanças que se operaram nos últimos tempos.</p>
<p style="text-align:justify">Pode ser que, então, este blog reanime um pouco.</p>
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		<title>Actualização</title>
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		<pubDate>Wed, 23 Apr 2008 20:02:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Cláudia</dc:creator>
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			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:justify">As últimas semanas passaram tão rápido, que não tive tempo ou inspiração suficientes para o blog. Para dizer a verdade, nem hoje os tenho. Só que estou farta de abrir o endereço e ver um post a dizer que passei a Análise Económica, quando a nota do exame foi apenas um pequeno pormenor no meio de tudo o que aconteceu desde a última vez que escrevi.</p>
<p style="text-align:justify">Falo da última vez que escrevi <em>a sério</em>, que deixei neste blog um texto que me deixou realizada depois de o terminar, e ao qual voltei de vez em quando para corrigir alguns pormenores. Isso foi há mais de um mês.</p>
<p style="text-align:justify">Talvez não volte a dar-vos algo do género para ler nos próximos tempos. Porque ando sem paciência para procurar a palavra e a vírgula certa para cada milímetro de frase, para evitar repetições e rimas indesejadas. Porque falta-me a imaginação para metáforas. Porque a faculdade ocupa quase todo o meu tempo. E, por fim, porque são demasiadas emoções para digerir, emoções com várias causas, e arrisco deixá-las fugir se perder tempo a reflectir sobre elas.</p>
<p style="text-align:justify">Muitas das emoções de que falo são positivas. Afinal, o meu esforço tem resultado. Passei no exame, fui aceite para Erasmus na universidade que escolhi e com as pessoas que queria. No entanto, talvez esta angústiazinha que sinto de vez em quando esteja aqui para me lembrar que há sempre algo que não bate certo.</p>
<p style="text-align:justify">Sim. Atinge-me o medo de reviver tudo. Talvez seja um ciclo vicioso. Há pouco mais de um ano, uma espécie de sonho foi substituído por um pesadelo que, a certo momento, parecia interminável. E se a peça se volta a repetir, mas com actores diferentes? E se descambar noutro sonho mau? Digamos que não. Que o sofrimento nos dá armas para lutar contra novas dificuldades.</p>
<p style="text-align:justify">&#8220;E então aprendemos a não levar nada a sério, porque assim nunca nos magoamos.&#8221; Disse uma frase parecida numa conversa, há bem pouco tempo. Agora que penso nela, acho que é uma afirmação cínica. Às vezes, não conseguimos evitar a dor. Faz parte da vida e ajuda-nos a crescer. Sofrer ensina-nos a ser felizes, um dia mais tarde.</p>
<p style="text-align:justify">Por fim, perdoem-me os devaneios sentimentais e o texto estilo de leitura rápida. Deixo-vos com o vídeo de uma balada dos Nightwish, tocada no Coliseu dos Recreios, porque o concerto foi no Sábado passado e ainda não escrevi nada sobre ele. A <a href="http://talvez-amanha.blogspot.com/">Sandra</a> fez uma excelente <a href="http://talvez-amanha.blogspot.com/2008/04/nightwish-rescaldo-do-concerto-no.html">cobertura</a> no blog dela.</p>
<p><center><object width="425" height="355"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/SV0LA4L4KvE&#038;hl=en"></param><param name="wmode" value="transparent"></param><embed src="http://www.youtube.com/v/SV0LA4L4KvE&#038;hl=en" type="application/x-shockwave-flash" wmode="transparent" width="425" height="355"></embed></object></center></p>
<p style="text-align:justify">Embora já tenha cumprido o seu propósito, o blog vai continuar. Quem sabe com uma renovação de visual!</p>
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		<title>O Café</title>
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		<pubDate>Wed, 19 Mar 2008 02:05:48 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Cláudia</dc:creator>
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			<content:encoded><![CDATA[<div align="right"><embed type="application/x-shockwave-flash" src="http://stat.radioblogclub.com/radio.blog/skins/mini/player.swf" allowScriptAccess="always" width="180" height="23" bgcolor="#FBFBFB" id="radioblog_player_-1" FlashVars="id=-1&#038;filepath=http://www.radioblogclub.com/listen2?u=0vMHZuV3bz9ybpRWYy9SbvNmLzR2bvdnZvt2Yl5mL3d3d/Aimee%2520Mann%2520-%2520Save%2520Me.rbs&#038;colors=body:#FBFBFB;border:#BBBBBB;button:#999999;player_text:#999999;playlist_text:#999999;" ></embed></div>
<p style="text-align:justify">Eram cerca de oito horas da noite quando ela chegou. Tinham combinado às seis e meia, mas ela atrasava-se sempre. Ou era o autocarro, ou a aula que durara mais que o previsto, ou a velha amiga que tinha encontrado por acaso e que a retera por mais tempo na conversa. Os amigos riram alegremente quando a ouviram desfazer-se em desculpas. Um deles levantou-se, pegou-a pelos braços e fê-la sentar-se na cadeira.</p>
<p style="text-align:justify">- Nós também nos atrasámos, não precisas de pedir desculpa.</p>
<p style="text-align:justify">- Já estão aqui há muito tempo? &#8211; Perguntou, ainda a arquejar, por causa da corrida que fizera para não chegar ainda mais tarde.</p>
<p style="text-align:justify">Eles olharam uns para os outros, sorriram, mas não responderam directamente à pergunta. Já se habituara a que assim fosse. No início, irritava-a um pouco, mas com o tempo ela própria começara a ganhar a mesma mania.</p>
<p style="text-align:justify">- Estávamos aqui a falar sobre as nossas relações falhadas. &#8211; Informou uma delas.<br />
- Eles são parvos. &#8211; respondeu o outro.</p>
<p style="text-align:justify">Ela fixou um ponto qualquer atrás da cabeça de um dos rapazes e suspirou.</p>
<p style="text-align:justify">- Deixa-me adivinhar como acaba&#8230;<br />
- O amor é uma ilusão.</p>
<p style="text-align:justify">A rapariga tirou um cigarro da mala, pegou no isqueiro e acendeu-o.</p>
<p style="text-align:justify">- Sabes que não é bem&#8230; &#8211; Antes de terminar a frase, deparou-se com um dos rapazes a observá-la com uma expressão divertida. &#8211; Que foi? &#8211; Perguntou, arqueando uma sobrancelha.<br />
- Não sabia que fumavas! &#8211; Riu.<br />
- Mas fumo. Qual é o problema?<br />
- Calma. Só achei piada a ver-te sacar do cigarro com tanta naturalidade.</p>
<p style="text-align:justify">Ela sorriu e deu outra passa.</p>
<p style="text-align:justify">- Sabes que não é bem assim. Os meus pais já vivem juntos há anos. Sobreviveram a várias dificuldades e resolveram milhares de discussões. Aprenderam a conviver com os defeitos um do outro, a tal ponto que já não os incomodam. Partilham as alegrias, as tristezas, as derrotas e as vitórias. Aconteça o que acontecer, apoiam-se um ao outro. Se isso não é amor, não sei o que será.<br />
- Tens a certeza que eles ainda têm sexo?<br />
Arqueou novamente a sobrancelha. &#8211; Parva! Sei lá.<br />
- Vês? Se não tiverem, é só uma amizade disfarçada.<br />
- Às vezes tens argumentos tão falaciosos.<br />
- E tu usas uns termos um bocado pomposos.</p>
<p style="text-align:justify">Calaram-se. Um dos amigos pegou no cigarro dela e apagou-o no cinzeiro.</p>
<p style="text-align:justify">- Existem paixões, isso sim. &#8211; Disse, antes de deitar a beata para um vaso de plantas ao seu lado. &#8211; Às vezes até podem ser à primeira vista, à primeira conversa. Outras, vão nascendo com o tempo. Estas últimas até podem ser das mais duradouras. Seja como for, há um dia em que o fogo se apaga por completo. Seja de repente, demore anos. Acaba por acontecer. É inevitável. E cada vez que acaba uma paixão, somos um pouco menos inocentes do que éramos quando ela começou.<br />
- Nem sempre.<br />
- Às vezes é preciso que a pessoa que amamos nos magoe muito para que consigamos deixar de gostar dela. &#8211; Comentou outra, baixando os olhos. &#8211; E mesmo assim, às vezes&#8230; &#8211; A sua voz reduziu-se a um fio rouco, de modo que ninguém conseguiu ouvir o fim da frase.</p>
<p style="text-align:justify">Fez-se silêncio por alguns instantes. Cada um reflectia sobre as relações que tivera ao longo da vida.</p>
<p style="text-align:justify">- Sabem a última do Sócrates? &#8211; Alguém tentou quebrar a tensão.</p>
<p style="text-align:justify">Ninguém respondeu.</p>
<p style="text-align:justify">- É isso. Paixão. Ficas apanhada por uma pessoa e descobres que não dá. Atiras-te de cabeça para uma relação impossível ou para um amor não correspondido. Sofres até não aguentares mais. E depois, quando começas a apaixonar-te outra vez, bates com a cabeça na parede e evitas a todo o custo que os teus sentimentos evoluam, com medo de não ser correspondida outra vez. Não queres voltar a sofrer, e por isso reprimes-te. Por isso, foges a todo o custo de qualquer relacionamento com o sexo oposto.</p>
<p style="text-align:justify">Alguém pigarreou e duas pessoas deram uma gargalhada.</p>
<p style="text-align:justify">- O que é que tem tanta graça nos meus problemas existenciais?<br />
- Não é nada disso. Só achámos piada a uma das tuas expressões.<br />
- Ah, bom.<br />
- Vocês queixam-se das vossas relações falhadas. &#8211; Suspirou um dos rapazes, impedindo que se instalasse um certo clima de descontracção. &#8211; Mas não sabem o que é&#8230; Não sabem que é ainda mais frustrante nunca ter tido uma única relação. Não sabem como é passar anos a ouvir os amigos queixarem-se sem conseguir perceber o que eles estão a sentir. Ou, mesmo quando se percebe, eles continuam a atirar-nos à cara que não podemos compreendê-los. Que tomara que nunca venhamos a passar pelo mesmo. E no fundo, tudo o que queremos é exactamente isso: passar pelo mesmo.</p>
<p style="text-align:justify">A rapariga que chegara atrasada levantou-se, batendo de propósito com o casaco no tampo da mesa. Todos a olharam, admirados.</p>
<p style="text-align:justify">- Alguém quer pastilhas? E cafés? Talvez uma sandes ou um bolo? Digam-me, que eu vou buscar.</p>
<p style="text-align:justify">Quando chegou ao balcão, a sua visão estava turva das lágrimas.</p>
<p style="text-align:justify">(Quis experimentar escrever uma cena de ficção utilizando remendos de conversas que tive ao longo do último ano. Excepto este facto, nada nesta história se passou ou passa na realidade.)</p>
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		<title>Cry</title>
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		<pubDate>Wed, 26 Dec 2007 15:49:12 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Cláudia</dc:creator>
				<category><![CDATA[divagações]]></category>
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		<description><![CDATA[Sit down and close your eyes. Please, do not walk away. Just sit. The fight is over. You lost it, but the point is that you do not have to try any harder. Take a deep breath. Inspire with all your strenght and keep as many oxygen as possible inside your lungs, because the real [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="justify">Sit down and close your eyes. Please, do not walk away. Just sit. The fight is over. You lost it, but the point is that you do not have to try any harder. Take a deep breath. Inspire with all your strenght and keep as many oxygen as possible inside your lungs, because the real combat is getting closer. You will fight for something else, that is for sure. However, the wounds of this new battle will be far more devastating than those from the last one you fought.</p>
<p align="justify">So, start closing your eyelids very carefully and stop when your eyes are hurt. Only then, allow a small warm tear to slide over your face, and then your neck and chest, to meet the heart. And cry, my child. Cry! It looks like this world wasn&#8217;t made for you, although it is the only one you can be in. There is not another one.</p>
<p align="justify">Love is such a harsh thing for a fragile human being. Has anyone ever asked you if you wanted to fall in love? Of course not. But still, you keep on falling over and over again. Until the day you cannot manage to rise up.</p>
<p align="justify">You aim for that day and finally you rest.</p>
<p align="justify">Find comfort in the certainty that nobody cares about the actual reason why you are crying, as they all have got their own theories. They all have their own delusions too.</p>
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		<title>Desencanto</title>
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		<pubDate>Wed, 19 Dec 2007 10:17:33 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Cláudia</dc:creator>
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		<description><![CDATA[A vida perdeu o brilho: Já não tem graça, Já não tem sentido. Ainda chegou a ter interesse, Mas isso era quando as pessoas nos sorriam Com sinceridade. Era quando os príncipes ficavam Com as princesas Ou com as filhas dos camponeses; Para o caso tanto faz. Quando adormecer não constituía o desafio De todas [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A vida perdeu o brilho:<br />
Já não tem graça,<br />
Já não tem sentido.<br />
Ainda chegou a ter interesse,<br />
Mas isso era quando as pessoas nos sorriam<br />
Com sinceridade.<br />
Era quando os príncipes ficavam<br />
Com as princesas<br />
Ou com as filhas dos camponeses;<br />
Para o caso tanto faz.<br />
Quando adormecer não constituía o desafio<br />
De todas as noites.</p>
<p>Perdeu o brilho, pois.<br />
Já nem sabes se riram da tua piada<br />
Ou da tua estupidez;<br />
Nunca soubeste,<br />
Mas antes não querias saber,<br />
Se bem que agora também não.</p>
<p>Mas o agora é diferente,<br />
Porque já não queres saber de nada.<br />
Se houvesse um abismo à tua frente,<br />
Saltavas para lá<br />
E desaparecias para sempre,<br />
Ou se calhar até não.</p>
<p>Se calhar até não,<br />
Porque as pessoas iam ficar mal:<br />
Aquelas que gostam realmente de ti.</p>
<p>Sim,<br />
Porque por cima de tudo isto<br />
Ainda há quem consiga gostar de ti,<br />
Sabe-se lá porquê.<br />
Não se compreende.</p>
<p>Mas também,<br />
Sabem lá se és boa pessoa,<br />
Porque já lá vai o tempo<br />
Em que os feios eram maus<br />
E os bonitos eram bons,<br />
Aliás, já lá vai o tempo<br />
Dos bons e dos maus.<br />
Há muito que tais coisas<br />
Deixaram de existir.</p>
<p>Agora há só gente<br />
E objectos,<br />
E sentimentos que se escondem<br />
Quando deviam ser mostrados,<br />
Outros que se revelam<br />
Quando deviam ser escondidos.</p>
<p>E não há confusão;<br />
Só factos que se seguem uns aos outros.<br />
Afinal, é só isso,<br />
Porque a vida perdeu o brilho.</p>
<p>Já não há nada.<br />
Nunca houve.</p>
<p>Perdeu o brilho.</p>
<p>Cresceste um pouco.</p>
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		<title>Ponto</title>
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		<pubDate>Sun, 16 Dec 2007 15:04:15 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Cláudia</dc:creator>
				<category><![CDATA[diário]]></category>
		<category><![CDATA[vida]]></category>

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		<description><![CDATA[Perdi-me no escuro das noites passadas em branco. Quando regressei, descobri outra pessoa, que esteve presa no meu subconsciente até agora. Deveria querer mandá-la embora, ignorar a sua existência, mas alcancei uma espécie de paz interior que não me permite anular-me. A febre sobe e entro em devaneios. Não preciso de ajuda. Já sei quem [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="justify">Perdi-me no escuro das noites passadas em branco. Quando regressei, descobri outra pessoa, que esteve presa no meu subconsciente até agora. Deveria querer mandá-la embora, ignorar a sua existência, mas alcancei uma espécie de paz interior que não me permite anular-me. A febre sobe e entro em devaneios. Não preciso de ajuda. Já sei quem sou, porque perante uma súbita conclusão todas as perguntas encontram resposta. Mas também não quero ser eu. Posso voltar atrás, ao momento em que me deixei cair?</p>
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		<title>Esperar</title>
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		<pubDate>Sun, 09 Dec 2007 16:33:22 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Cláudia</dc:creator>
				<category><![CDATA[diário]]></category>
		<category><![CDATA[comboio]]></category>
		<category><![CDATA[telemóvel]]></category>
		<category><![CDATA[vida]]></category>

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		<description><![CDATA[Entro na estação de Entrecampos às onze e meia da noite. A plataforma está vazia, com excepção de duas pessoas. Dirijo-me a uma delas e pergunto se ainda vai passar algum comboio para Alverca, mas ele não me sabe responder. Por isso, forço-me a descer novamente as escadas, até ao televisor que indica os próximos [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="justify">Entro na estação de Entrecampos às onze e meia da noite. A plataforma está vazia, com excepção de duas pessoas. Dirijo-me a uma delas e pergunto se ainda vai passar algum comboio para Alverca, mas ele não me sabe responder. Por isso, forço-me a descer novamente as escadas, até ao televisor que indica os próximos comboios. Roma-Areeiro, Roma-Areeiro, Roma-Areeiro, Roma-Areeiro. Nesta noite, já não tenho maneira de ir para Alverca sem ser de carro. Merda, lá vou eu ter que ficar à espera.</p>
<p align="justify">- Estou, pai? Perdi o comboio, podes vir buscar-me?<br />
- Claro, onde é que estás?<br />
- Entrecampos.<br />
- Na estação de comboios?<br />
- Sim&#8230;<br />
- Então não saias daí, que eu vou buscar-te.<br />
- Está bem, até já. Beijinhos.<br />
- Até já.</p>
<p align="justify">De Alverca a Entrecampos leva pelo menos meia hora, por isso ponho-me a vaguear pela estação com um saco de compras numa mão e a mala na outra. Vou até ao Metro, para saber se ainda está aberto. Talvez possa ir até ao Oriente, e quando chegar lá não tenho que ficar muito tempo à espera. Evito a passadeira rolante e arrasto-me lentamente até à entrada. De facto, ainda estão a passar comboios. Pego outra vez no telemóvel.</p>
<p align="justify">- Estou? O Metro ainda está aberto. Posso ir até ao Oriente? Se calhar dá-te mais jeito.<br />
- Não, deixa estar, agora já estou a caminho.<br />
Bolas.<br />
- Mas tens a certeza?<br />
- Tu é que sabes. A mim não me faz muita diferença.<br />
Humpf.<br />
- Pronto, eu fico aqui. Mas demoras muito?<br />
&#8220;Mas&#8221; é uma daquelas conjunções que tornam a minha linguagem demasiado repetitiva.<br />
- Uns dez minutos.<br />
Dizer que faltam dez minutos significa que vai demorar vinte. Eu herdei a mesma mania dele.<br />
- Bah&#8230; Ok, até já.</p>
<p align="justify">De repente, dá-me vontade de ir à casa de banho. De volta à estação de comboio, sigo as indicações até chegar a um buraco esquecido lá no meio, onde existem, de facto, duas casas de banho malcheirosas. Que remédio. Não consigo aguentar até casa. Despacho-me o mais rápido possível e regresso à plataforma, o único sítio onde me posso sentar. Sento-me num banco ao pé do relógio, para me poder torturar com as horas. Meia noite.</p>
<p align="justify">Já podia estar quase em casa, se a CP tivesse comboios em circulação um pouco até mais tarde. Não percebo por que razão passam sempre comboios na direcção de Sintra e na de Alverca há tantas horas mortas. Creio que é uma questão de logística, enfim, não posso fazer nada.</p>
<p align="justify">«Catarina, recebeste a minha última sms?»<br />
«Sim, mas já estava na cama, por isso não posso ligar o computador.»<br />
«Ah, obrigada na mesma, então. Desculpa ter-te acordado.»<br />
«Não me acordaste, não consigo adormecer.»<br />
«Que merda de vida.»</p>
<p align="justify">Guardo o telemóvel no bolso e olho para as roupas que comprei. Depois disto, devo ter ficado para aí com dez euros na conta, mas se pude gastar algum dinheiro significa que o tinha. O que interessa é que possa pagar os almoços até ao final do mês. Além disso, estava a precisar, porque no Inverno passado tive um ataque e dei metade da minha roupa velha aos pobres.</p>
<p align="justify">Meia noite e cinco. Vem-me à cabeça uma música que já não ouço há algum tempo. Começo a cantarolá-la para matar os minutos.</p>
<p align="justify"><em>Prison gates won&#8217;t open up for me<br />
On these hands and knees I&#8217;m crawlin&#8217;</em></p>
<p align="justify">O tempo passa devagar para quem espera e demasiado depressa para quem é esperado.</p>
<p align="justify"><em>Well I&#8217;m terrified of these four walls<br />
These iron bars can&#8217;t hold my soul in</em></p>
<p align="justify">Ultimamente, não é raro os meus dias terminarem à espera de boleia na paragem do comboio. Devia ter mais atenção aos horários. O meu pai é que paga sempre pela minha falta de atenção.</p>
<p align="justify"><em>Show me what it&#8217;s like<br />
To be the last one standing<br />
And teach me wrong from right<br />
And I&#8217;ll show you what I can be<br />
And say it for me<br />
Say it to me<br />
And I&#8217;ll leave this life behind me<br />
Say it if it&#8217;s worth saving me</em></p>
<p align="justify">O telemóvel vibra. É o meu pai.<br />
- Estou?<br />
- Já cheguei.<br />
Levanto-me e pego no saco.<br />
- Onde estás? &#8211; pergunto.</p>
<p align="justify"><em>Beep, beep, beep&#8230;</em></p>
<p align="justify">&#8220;Mas que raio?&#8230;&#8221;<br />
Olho em frente e ele está a entrar na plataforma.</p>
<p align="justify"><object width="300" height="80"><param name="movie" value="http://media.imeem.com/m/Ywlnhh1eAo/aus=false/"></param><param name="wmode" value="transparent"></param><embed src="http://media.imeem.com/m/Ywlnhh1eAo/aus=false/" type="application/x-shockwave-flash" width="300" height="80" wmode="transparent"></embed></object></p>
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		<title>Pensamentos de Inverno</title>
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		<pubDate>Sun, 02 Dec 2007 05:56:28 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Cláudia</dc:creator>
				<category><![CDATA[divagações]]></category>
		<category><![CDATA[diário]]></category>
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		<description><![CDATA[Não estou com falta de sono, mas o computador estava a chamar-me há algumas horas. Contudo, não quero olhar para o ecrã. Na verdade, o que me apetece é ligar o aquecedor, enfiar a cabeça na almofada e adormecer. Quero esquecer que os telemóveis não estão comigo, pelo que não posso cancelar as coisas que [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="justify">Não estou com falta de sono, mas o computador estava a chamar-me há algumas horas. Contudo, não quero olhar para o ecrã. Na verdade, o que me apetece é ligar o aquecedor, enfiar a cabeça na almofada e adormecer. Quero esquecer que os telemóveis não estão comigo, pelo que não posso cancelar as coisas que combinei com as pessoas, e que elas vão ficar chateadas por não me poderem contactar. Que se lixe! Não posso fazer nada. Mas também ninguém se importa realmente com o que faço. Por favor, não me tomem por sarcástica quando vos disser que esta sensação é relativamente inspiradora.</p>
<p align="justify">Quando desligar esta máquina, que me acompanha há quase um ano, vou dormir profundamente. Nem me vou dar ao trabalho de pegar num livro. Amanhã, só acordarei a meio da tarde e trancar-me-ei no meu quarto até que chegue a vontade de sair. E vou pensar apenas em mim, como se o resto do mundo não existisse. O facto é que não me lembro de alguma vez ter feito isto. Ou se o fiz, foi há tanto tempo que já não me recordo. Portanto, eis o momento de reflectir um pouco sobre este ser que sou eu e descobrir como ele funciona, antes de sair lá para fora.</p>
<p align="justify">Quem sou eu? Já perdi a conta às vezes em que pensei ter alcançado uma resposta. E alcancei-a várias vezes, só que ela nunca foi definitiva. De vez em quando, surge um novo dado para quebrar o tecto de vidro do meu prédio, exigindo-me que construa um novo andar por cima. E eu escolho sempre que o novo tecto continue a ser de vidro, porque o cimento tornaria o prédio demasiado escuro para se viver nele. Por isso, vou construindo andares frágeis sobre camadas de tectos partidos. E espero sempre que a construção não colapse de vez.</p>
<p align="justify">Há uns dias, um amigo perguntou-me se eu seria capaz de voltar a quem era antes de entrar para a faculdade: e eu respondi-lhe que não, porque não quero. Mas se quisesse, poderia? Afinal, já foram tantas coisas nas quais embrulhei as ideias. Mesmo assim, creio que não seria impossível recuperar parte do Passado. Ou pegar nas melhores partes dele e transformá-las em Futuro. É que eu sou daquelas pessoas que acreditam que, em parte, nós somos aquilo que escolhemos, dentro dos parâmetros da sociedade.</p>
<p align="justify">Vou publicar este texto sem me preocupar com a falta de coesão do meu discurso. E a seguir vou aconchegar-me entre os lençóis e os cobertores e esvaziar a cabeça até adormecer.</p>
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		<title>Desligo</title>
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		<pubDate>Sat, 24 Nov 2007 01:12:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Cláudia</dc:creator>
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		<category><![CDATA[amizade]]></category>
		<category><![CDATA[distância]]></category>
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		<description><![CDATA[Instintivamente, pego no telefone de casa e marco o teu número. Espero que ainda seja o mesmo. Sei-o de cor, tantas foram as vezes que precisei de te telefonar ao longo dos anos. Quero saber como estás, como anda o emprego, a faculdade, a família, o amor. Já não ouço a tua voz há tanto [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="justify">Instintivamente, pego no telefone de casa e marco o teu número. Espero que ainda seja o mesmo. Sei-o de cor, tantas foram as vezes que precisei de te telefonar ao longo dos anos. Quero saber como estás, como anda o emprego, a faculdade, a família, o amor. Já não ouço a tua voz há tanto tempo! Tenho saudades de passar os dias a rir contigo por coisa nenhuma ou de te deixar chorar no meu ombro durante horas intermináveis. Nunca mais me disseste nada, mas a verdade é que eu também nunca mais te dei atenção. Ouço o sinal de chamada uma, duas vezes&#8230; Desligo. Afinal, não estou lá com muita paciência para conversas.</p>
<p align="justify">Na verdade, as amizades são parecidas com os namoros. Às vezes o tempo faz com que os amigos deixem de precisar de nós. Noutras, afastamo-nos porque seguimos caminhos diferentes e não fomos capazes de compreender as mudanças. Nas situações mais felizes, mantemo-nos em contacto para o resto da vida, sabendo que temos ali alguém para os melhores e para os piores momentos.</p>
<p align="justify">Contigo não sei o que foi. Um dia destes, quando não tiver preguiça, talvez fique à espera que atendas o telemóvel.</p>
<p align="justify"><object width="300" height="80"><param name="movie" value="http://media.imeem.com/m/kQjYWr8Fal/aus=false/"></param><param name="wmode" value="transparent"></param><embed src="http://media.imeem.com/m/kQjYWr8Fal/aus=false/" type="application/x-shockwave-flash" width="300" height="80" wmode="transparent"></embed></object></p>
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		<title>Anjo da Morte</title>
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		<pubDate>Fri, 23 Nov 2007 23:21:13 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Cláudia</dc:creator>
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		<category><![CDATA[reabilitação]]></category>
		<category><![CDATA[suicídio]]></category>
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		<description><![CDATA[És um espírito invisível que me persegue a mim e às pessoas de quem gosto. Escondes-te atrás da tristeza e da angústia, à medida que as suas sombras crescem nos nossos rostos, e aguardas o momento em que não aguentaremos mais. Os teus olhos, sedentos, acendem-se com cada lágrima de raiva ou frustração que cai [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="justify">És um espírito invisível que me persegue a mim e às pessoas de quem gosto. Escondes-te atrás da tristeza e da angústia, à medida que as suas sombras crescem nos nossos rostos, e aguardas o momento em que não aguentaremos mais. Os teus olhos, sedentos, acendem-se com cada lágrima de raiva ou frustração que cai sobre as tuas mãos, abertas em concha para a receber. Mas a tua espera não se cobre de ânsias; antes pelo contrário: é serena, porque tens a certeza que está para breve o dia em que te suplicaremos que nos leves contigo e acabes com tudo isto, com esta falta de sentido, com esta sequência de emoções perdidas que levam a nada! E garantes a persistência da tristeza no nosso peito com pequenos sussuros nos confins da noite. Dizes-nos segredos que só nós conseguimos ouvir, que nos fazem chorar amargamente pelo passado, atirar insultos mesquinhos à nossa vida e à dos outros e pensar que somos inúteis. Suaves palavras, que nem sequer o são, que criam um sentimento de inevitabilidade&#8230;</p>
<p align="justify">Mas enganas-te, triste Anjo da Morte. Não deixarei que a falta de rumo na minha vida me faça gritar por ti.</p>
<p align="justify">Porque estou farta de alegrias simuladas presas por um fio inexistente. É agora mesmo que vou ser feliz e a tua sombra atrás das minhas depressões será uma mancha cada vez mais ténue, até que se afunde num poço qualquer no meu passado.</p>
<p align="justify">Vou cortar-te as asas antes que chegue o teu momento de voar.</p>
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		<title>Família e Amigos</title>
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		<pubDate>Sat, 17 Nov 2007 17:12:27 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Cláudia</dc:creator>
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		<category><![CDATA[diário]]></category>
		<category><![CDATA[amizade]]></category>
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			<content:encoded><![CDATA[<p align="justify">Porque há mais de uma semana prometi à Andreia que ia escrever qualquer bem disposta para ela poder comentar devidamente, vou falar sobre a família e os amigos. Que foi o que lhe disse que ia fazer, por isso cá estou a cumprir a promessa. O tema não é nada de extraordinário, se o compararmos com as dissertações pseudo-filosóficas com que às vezes vos presenteio, mas são eles que fazem de mim o ser estranho que escreve essas mesmas coisas &#8211; para o bem ou para o mal.</p>
<p align="justify">Dos muitos blogs que li, foram poucos aqueles em que os respectivos autores se lembraram de elogiar essas pessoas maravilhosas que nos acompanham ao longo da vida, apoiando-nos na maior euforia e na mais profunda depressão. Não concordo quando dizem que a família é mais importante que os amigos, porque cada um destes grupos tem o seu propósito e é necessário para nos sentirmos completos, mas os laços que desenvolvemos com cada um é diferente.</p>
<p align="justify">Com os amigos, esforço-me muito mais para manter uma relação de igual para igual, o que não significa que seja um esforço desagradável. Se um dia é a minha amiga que me convida para ir ao cinema, na semana seguinte sou eu que lhe pergunto se quer ir encher-se de <em>fast food</em> ao McDonald&#8217;s. De facto, os amigos, a menos que gostem tanto de nós que insistem até que lhes prestemos atenção, só estão presentes quando nos mostramos disponíveis. Se, de um momento para o outro e durante um período muito prolongado, começamos a tratá-los com atitudes carrancudas sem dar qualquer explicação, eles acabam por se fartar de não perceber e, mesmo sem intenção, afastam-se a pouco e pouco. Se forem bons amigos, procuram saber o motivo da nossa má disposição, mas se nunca lhes respondermos vão pensar que já não gostamos da sua companhia, e afastam-se com raiva, tristeza, ou até indiferença.</p>
<p align="justify">A menos que tenhamos estabelecido com essas pessoas vínculos emocionais que as tornem parte da nossa família &#8211; e aí já nos conhecem tão bem, que pouca coisa no nosso comportamento as surpreende. Se deixarmos de lhes falar, mesmo que não consigam compreender a razão, elas são pacientes. Se recusarmos as suas tentativas de ajuda, estes amigos esperam até que resolvamos os nossos problemas, porque sabem que voltaremos para eles na altura certa. Mantêm sempre as portas abertas para nós, mesmo que os tratemos mal, que lhes lancemos as acusações mais absurdas e que nos fechemos no nosso mundo atrás de portões encerrados com trancas e chaves. E nós, apesar de temermos perder a sua amizade, sabemos que eles estão ali, à nossa espera. É a eles que acabamos sempre por contar a nossa vida, mesmo quando, há cinco minutos atrás, dizíamos que havia coisas que não lhes podíamos confiar porque eles não seriam capazes compreender. E eles supreendem-nos ao esforçar-se por perceber, em vez de nos magoarem com sermões que já tínhamos repetido para nós anteriormente. E de nós eles obtêm o mesmo, porque são também são pessoas, com os seus problemas, birras e inconsistências.</p>
<p align="justify">São estes os verdadeiros amigos, e é também assim que funciona a minha família. Por isso, se há familiares que são amigos, há também amigos que são familiares, ainda que não partilhemos laços de sangue com eles. E pessoas assim, são poucas numa vida. Considero-me uma pessoa com sorte porque as circunstâncias da vida me proporcionaram uma boa família e alguns &#8211; pouquitos &#8211; bons amigos.</p>
<p align="justify">E se às vezes choro, é porque sei que não me esforço o suficiente para merecer tudo o que me dão. E que eles vão aceitar e sorrir se eu disser que, a partir de agora, me vou esforçar mais. E que prometo ajudá-los como eles me ajudam a mim.</p>
<p align="justify">Obrigada.</p>
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		<title>Infância</title>
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		<pubDate>Mon, 05 Nov 2007 03:45:11 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Cláudia</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Esta noite não consigo adormecer, mas desta vez não posso culpar as preocupações: esta falta de sono deve-se a um erro estúpido da minha parte, causado por outro daqueles ataques de fome de que tenho sofrido nas últimas semanas. Porque as verdadeiras insónias, que tanto me atormentaram, estão a desaparecer gradualmente. Estando desperta, podia aproveitar [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="justify">Esta noite não consigo adormecer, mas desta vez não posso culpar as preocupações: esta falta de sono deve-se a um erro estúpido da minha parte, causado por outro daqueles ataques de fome de que tenho sofrido nas últimas semanas. Porque as verdadeiras insónias, que tanto me atormentaram, estão a desaparecer gradualmente.</p>
<p align="justify">Estando desperta, podia aproveitar para passar a computador o trabalho de Economia ou tentar resolver o quebra-cabeças que é o trabalho de Javascript de LIE, mas prefiro passar a noite no YouTube a recordar as canções dos filmes de infância.</p>
<p align="justify"><em>Infância</em>.</p>
<p align="justify">Aquele tempo em que imaginamos. Em que nos fazem crer que não há &#8220;maldade&#8221; no mundo, enquanto, discretamente, nos incutem valores que distinguem o certo do errado. Cultivam em nós certezas de um futuro no qual tudo segue as regras preparadas para nós desde sempre, mesmo antes de a hipótese de nascermos se colocar na cabeça dos nossos pais. Não nos preparam para o dia em que essas certezas passam a esperanças, depois a sonhos; e muito menos para a conclusão de que os sonhos não são mais que doces recordações, vindas dos tempos em que a inocência nos envolvia no seu abraço cinicamente protector. Dos tempos em que um sorriso era completo e sincero, pois não disfarçava um mundo de vazios e angústias.</p>
<p align="justify">No entanto, não guardo nostalgia desses dias, do mesmo modo que espero não guardar nostalgia dos tempos de faculdade daqui a alguns anos. Foi mais uma etapa. Penso que a infância deve ser aquela fase da nossa vida que, por ser menos consciente, custa mais a ultrapassar. A realidade demora muitos anos a conseguir romper o véu de mentiras com que a disfarçaram, e ainda mais a destruí-lo. E esse processo de destruição nunca termina. E dói. À medida que ocorre, a nossa confusão aumenta. O que é certo? O que é errado? Isso da felicidade existe mesmo?</p>
<p align="justify">Depois, se a realidade for bem-sucedida, percebemos que não há respostas certas para estas perguntas. Talvez nunca as devêssemos ter colocado, em primeiro lugar, porque talvez elas não tenham pertinência. Aprendemos, então, a escrever o livro da nossa vida, por cima das páginas que quem nos educou quis rascunhar por nós. Mas aquela dor, que principiou quando o mundo nos bateu à porta pela primeira vez, acompanha-nos pelo resto da vida. Com o tempo, descobrimos que não é assim tão difícil suportá-la.</p>
<p align="justify">Há ainda aqueles que, por medo de não aguentar essa dor, se cobrem de um novo véu de ilusões, mais forte ainda que o anterior. E carregam esta Infância consciente durante toda a sua vida.</p>
<p align="justify">São felizes? Talvez. Se o sentirem. Não vale a pena obrigar alguém que se diz feliz à infelicidade.</p>
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