Inspirações Disney, n.º 1
God Help the Outcasts – Corcunda de Notre-Dame
As religiões existem desde que há registos da história humana. Em todas as civilizações que estudamos ou conhecemos, há sempre uma ou um conjunto de entidades que estão acima dos comuns mortais, e que os vigiam e protegem durante as suas vidas.
Mais ou menos fechadas, repressoras ou não, este é o propósito comum a todas: a redução do sentimento de desamparo, nas alturas em que o resto do mundo parece funcionar mal. Quando alguém está sozinho, precisa de alguém que o ajude, ou, pelo menos, que o ouça.
Pois a solidão é uma característica consequente da nossa dualidade enquanto humanos. Se aquilo que nos forma – a personalidade, o aspecto, os objectivos, isso tudo, – deriva da interacção com os nossos pares, não existe verdadeiramente nenhuma maneira de estarmos sempre acompanhados por eles, nem que, por vezes, seja apenas em pensamento.
Na maior parte das sociedades, a dominância das religiões confunde-se com o seu verdadeiro objectivo, e com a história em si. Na civilização em que vivemos, contudo, se a religião dominante já não consegue impôr muitos dos seus valores, poderia – vamos a ver – ter muito menos influência. Mas por que continua a maioria da população a segui-la, quando há argumentos por cima de argumentos que tendem a torná-la obsoleta? Por que motivo continuam a acreditar nos contra-argumentos, num mundo dominado pela ciência?
Julgo que é precisamente por causa daquela necessidade de sentir protecção. Refiro-me a uma protecção contra a loucura, que mantenha aquilo que nos esforçámos para ser, mesmo quando nos sentimos abandonados por todos. Algo para nos agarrarmos, para que não nos desviemos muito do que nos faz sentir bem.
No entanto, não me tomem por defensora de qualquer religião. Apesar de tudo, não acho que seja precisa uma para ganhar a segurança de que falei. Cada pessoa é única, e, por isso mesmo, é à medida que vive que vai encontrando as coisas que a mantêm firme. Pela minha experiência, posso dizer que até tentei acreditar em mais que uma religião, mas cansei-me rapidamente, pois o meu caminho não passava por aí. Acho que as pessoas deviam ser educadas para perceber aquilo que as move realmente, mas essa reflexão ficará para outra altura.
A questão é que, se deixamos de acreditar nestes talismãs, que nos ajudam a viver – sejam eles religiões, sonhos, memórias ou pessoas, – é fácil deixar que, nos momentos menos oportunos, os sentimentos mais negativos nos consumam. Talvez a existência se transforme em mera sobrevivência, porque não há objectivos para cumprir, nem motivos para os desenvolver.
Será possível sermos humanos se não tivermos algo a que nos agarrar?
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