Sonho

Confrontada com a pergunta, ela desviou o olhar, sem conseguir encará-lo.
- Acho que não. Nunca compreendi muito bem o que é isso do Amor. Habituei-me a viver entre os compromissos do trabalho e os meus corações partidos. É que nunca soube deixar que alguém me amasse. Por isso, o Amor acabou por ser sempre doloroso para mim. Nunca passou de paixões não correspondidas e pré-relações falhadas. Percebes?
Ele pegou-lhe no rosto, forçando-a a olhá-lo nos olhos.
- Como é possível que não conheças o Amor? Uma pessoa como tu?
Ela reprimiu uma gargalhada, o que a fez soltar um soluço amargurado.
- Como eu?
- Sim.
- Bem, acho que foi uma questão de timing… e outras vezes de azar.
- Pois, calha a todos.
- É só isso que tens a dizer?
- É.
Ele baixa o olhar. Ela olha para todo o lado menos para ele. Para as nuvens, para os pássaros, para o letreiro de uma carrinha que passa na estrada, ao fundo, quando termina o jardim.
- Sabes… – diz ela – Acho que sou perita em desperdiçar oportunidades.
- Garanto-te que não vais perder esta.

E depois o despertador tocou.


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