Amor?

Nas séries televisivas fala-se muito numa coisa que é referida através da palavra “amor”.

Em regra, recorre-se a este termo quando se verifica uma sucessão de acções pré-definidas. Conhecem-se, encontram-se, beijam-se, falam em namoro e cinco minutos depois já estão a fazer promessas de “amor eterno”. Passado algum tempo, separam-se, dizem que se odeiam, sofrem, e depois voltam a juntar-se. No meio deste processo, o casal torna-se num par de seres simbiótico-parasitantes, que vivem em função um do outro, sem objectivos próprios a não ser o de impedir que a sua relação termine. Não imaginamos a existência de uma personagem sem a outra, porque ambas estão esvaziadas de personalidade quando se separam.

Certamente, há quem funcione desta maneira. Cheguei até a perguntar-me se seria um ser estranho por não pensar assim, posto que a realidade do amor que nos apresenta a cultura de massas é sempre igual. Mas é o parasitismo que constitui a essência do dito “amor”? O que há de bom em sentirmo-nos muito bem quando estamos com uma pessoa e ficarmos miseráveis SEMPRE que ela está longe de nós?

Tenho para mim que o Amor constitui um crescimento trabalhado em conjunto por duas pessoas. É uma relação simbiótica, não parasitante, da qual ambos saem a ganhar. É algo que demora tempo, e não só uma paixão arrebatadora que aparece porque as hormonas decidiram saltar num dado momento. É uma promessa feita em silêncio, porque nem sempre são precisas palavras para demonstrar que se quer estar com alguém.

O Amor sabe esperar para que a paixão aconteça. O Amor preenche, não traz lágrimas. Não obriga a esperas frustradas que terminam em desilusão. Não induz a sensação de se ter feito ou dito algo ridículo para se conquistar aquela pessoa. Não exige que se sufoque o outro com sentimentos que o assustam. Não trai, não mente, não engana. Não induz em erro. Não tem ciúme. Não obriga a estar sempre a falar com o outro, porque se sabe que ele carrega consigo a lembrança de tudo o que somos, do mesmo modo que também levamos para todo o lado a lembrança do que ele é. Aceita os defeitos do outro e dá-lhe todo o tempo de que necessita para os corrigir, ou, caso sejam incorrigíveis, aceita-os como qualidades. Não utiliza uma pessoa para esquecer outra qualquer. Não tem medo de se comprometer, porque quem ama é sempre livre.

Quando duas pessoas se amam, constróem-se e não se anulam. Quando há anulação do “Eu”, deixa de existir Amor, para dar lugar a uma coisa que se parece mais com sufoco. O Amor não assume que conhece tudo sobre a outra pessoa, porque sabe que a cada segundo pode descobrir algo novo. E, assim, fascina-se com cada detalhe que lhe vai sendo revelado ao longo dos momentos que partilham. O Amor é mútuo e correspondido.

Um dia, pode acabar-se a paixão, podem findar as palavras, pode cansar-se a alma. Sem choros, sem tristeza, ambos partem, amando-se. Contudo, vão tranquilos, por saber que já nada de novo têm a dar um ao outro.

Por isso, penso nas poucas vezes em que achei que amava alguém… E concluo que estive sempre enganada.


Comentários

  1. Citação

    bem, pelo menos voltas te em grande :)

  2. Citação

    Como estás tão certa…

    Grande texto =o

  3. Citação

    É incrível como conseguiste descrever um sentimento, vivido muitas vezes de forma complexa, como o amor.. Verdades que, frequentemente, nos passam ao lado porque não reflectimos nelas, mas que não deixam de existir.

    (Acho que vou fazer copy-paste deste post xD)

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