Pensamentos de Inverno
Não estou com falta de sono, mas o computador estava a chamar-me há algumas horas. Contudo, não quero olhar para o ecrã. Na verdade, o que me apetece é ligar o aquecedor, enfiar a cabeça na almofada e adormecer. Quero esquecer que os telemóveis não estão comigo, pelo que não posso cancelar as coisas que combinei com as pessoas, e que elas vão ficar chateadas por não me poderem contactar. Que se lixe! Não posso fazer nada. Mas também ninguém se importa realmente com o que faço. Por favor, não me tomem por sarcástica quando vos disser que esta sensação é relativamente inspiradora.
Quando desligar esta máquina, que me acompanha há quase um ano, vou dormir profundamente. Nem me vou dar ao trabalho de pegar num livro. Amanhã, só acordarei a meio da tarde e trancar-me-ei no meu quarto até que chegue a vontade de sair. E vou pensar apenas em mim, como se o resto do mundo não existisse. O facto é que não me lembro de alguma vez ter feito isto. Ou se o fiz, foi há tanto tempo que já não me recordo. Portanto, eis o momento de reflectir um pouco sobre este ser que sou eu e descobrir como ele funciona, antes de sair lá para fora.
Quem sou eu? Já perdi a conta às vezes em que pensei ter alcançado uma resposta. E alcancei-a várias vezes, só que ela nunca foi definitiva. De vez em quando, surge um novo dado para quebrar o tecto de vidro do meu prédio, exigindo-me que construa um novo andar por cima. E eu escolho sempre que o novo tecto continue a ser de vidro, porque o cimento tornaria o prédio demasiado escuro para se viver nele. Por isso, vou construindo andares frágeis sobre camadas de tectos partidos. E espero sempre que a construção não colapse de vez.
Há uns dias, um amigo perguntou-me se eu seria capaz de voltar a quem era antes de entrar para a faculdade: e eu respondi-lhe que não, porque não quero. Mas se quisesse, poderia? Afinal, já foram tantas coisas nas quais embrulhei as ideias. Mesmo assim, creio que não seria impossível recuperar parte do Passado. Ou pegar nas melhores partes dele e transformá-las em Futuro. É que eu sou daquelas pessoas que acreditam que, em parte, nós somos aquilo que escolhemos, dentro dos parâmetros da sociedade.
Vou publicar este texto sem me preocupar com a falta de coesão do meu discurso. E a seguir vou aconchegar-me entre os lençóis e os cobertores e esvaziar a cabeça até adormecer.