Esperar

Entro na estação de Entrecampos às onze e meia da noite. A plataforma está vazia, com excepção de duas pessoas. Dirijo-me a uma delas e pergunto se ainda vai passar algum comboio para Alverca, mas ele não me sabe responder. Por isso, forço-me a descer novamente as escadas, até ao televisor que indica os próximos comboios. Roma-Areeiro, Roma-Areeiro, Roma-Areeiro, Roma-Areeiro. Nesta noite, já não tenho maneira de ir para Alverca sem ser de carro. Merda, lá vou eu ter que ficar à espera.

- Estou, pai? Perdi o comboio, podes vir buscar-me?
- Claro, onde é que estás?
- Entrecampos.
- Na estação de comboios?
- Sim…
- Então não saias daí, que eu vou buscar-te.
- Está bem, até já. Beijinhos.
- Até já.

De Alverca a Entrecampos leva pelo menos meia hora, por isso ponho-me a vaguear pela estação com um saco de compras numa mão e a mala na outra. Vou até ao Metro, para saber se ainda está aberto. Talvez possa ir até ao Oriente, e quando chegar lá não tenho que ficar muito tempo à espera. Evito a passadeira rolante e arrasto-me lentamente até à entrada. De facto, ainda estão a passar comboios. Pego outra vez no telemóvel.

- Estou? O Metro ainda está aberto. Posso ir até ao Oriente? Se calhar dá-te mais jeito.
- Não, deixa estar, agora já estou a caminho.
Bolas.
- Mas tens a certeza?
- Tu é que sabes. A mim não me faz muita diferença.
Humpf.
- Pronto, eu fico aqui. Mas demoras muito?
“Mas” é uma daquelas conjunções que tornam a minha linguagem demasiado repetitiva.
- Uns dez minutos.
Dizer que faltam dez minutos significa que vai demorar vinte. Eu herdei a mesma mania dele.
- Bah… Ok, até já.

De repente, dá-me vontade de ir à casa de banho. De volta à estação de comboio, sigo as indicações até chegar a um buraco esquecido lá no meio, onde existem, de facto, duas casas de banho malcheirosas. Que remédio. Não consigo aguentar até casa. Despacho-me o mais rápido possível e regresso à plataforma, o único sítio onde me posso sentar. Sento-me num banco ao pé do relógio, para me poder torturar com as horas. Meia noite.

Já podia estar quase em casa, se a CP tivesse comboios em circulação um pouco até mais tarde. Não percebo por que razão passam sempre comboios na direcção de Sintra e na de Alverca há tantas horas mortas. Creio que é uma questão de logística, enfim, não posso fazer nada.

«Catarina, recebeste a minha última sms?»
«Sim, mas já estava na cama, por isso não posso ligar o computador.»
«Ah, obrigada na mesma, então. Desculpa ter-te acordado.»
«Não me acordaste, não consigo adormecer.»
«Que merda de vida.»

Guardo o telemóvel no bolso e olho para as roupas que comprei. Depois disto, devo ter ficado para aí com dez euros na conta, mas se pude gastar algum dinheiro significa que o tinha. O que interessa é que possa pagar os almoços até ao final do mês. Além disso, estava a precisar, porque no Inverno passado tive um ataque e dei metade da minha roupa velha aos pobres.

Meia noite e cinco. Vem-me à cabeça uma música que já não ouço há algum tempo. Começo a cantarolá-la para matar os minutos.

Prison gates won’t open up for me
On these hands and knees I’m crawlin’

O tempo passa devagar para quem espera e demasiado depressa para quem é esperado.

Well I’m terrified of these four walls
These iron bars can’t hold my soul in

Ultimamente, não é raro os meus dias terminarem à espera de boleia na paragem do comboio. Devia ter mais atenção aos horários. O meu pai é que paga sempre pela minha falta de atenção.

Show me what it’s like
To be the last one standing
And teach me wrong from right
And I’ll show you what I can be
And say it for me
Say it to me
And I’ll leave this life behind me
Say it if it’s worth saving me

O telemóvel vibra. É o meu pai.
- Estou?
- Já cheguei.
Levanto-me e pego no saco.
- Onde estás? – pergunto.

Beep, beep, beep…

“Mas que raio?…”
Olho em frente e ele está a entrar na plataforma.


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