Desligo
Instintivamente, pego no telefone de casa e marco o teu número. Espero que ainda seja o mesmo. Sei-o de cor, tantas foram as vezes que precisei de te telefonar ao longo dos anos. Quero saber como estás, como anda o emprego, a faculdade, a família, o amor. Já não ouço a tua voz há tanto tempo! Tenho saudades de passar os dias a rir contigo por coisa nenhuma ou de te deixar chorar no meu ombro durante horas intermináveis. Nunca mais me disseste nada, mas a verdade é que eu também nunca mais te dei atenção. Ouço o sinal de chamada uma, duas vezes… Desligo. Afinal, não estou lá com muita paciência para conversas.
Na verdade, as amizades são parecidas com os namoros. Às vezes o tempo faz com que os amigos deixem de precisar de nós. Noutras, afastamo-nos porque seguimos caminhos diferentes e não fomos capazes de compreender as mudanças. Nas situações mais felizes, mantemo-nos em contacto para o resto da vida, sabendo que temos ali alguém para os melhores e para os piores momentos.
Contigo não sei o que foi. Um dia destes, quando não tiver preguiça, talvez fique à espera que atendas o telemóvel.
Às vezes o tempo faz com que os amigos deixem de precisar de nós.
Acredito que a base para uma amizade duradoura é o apoio mútuo. Muitas vezes, dizemos que precisamos de amigos, no entanto, tenho procurado excluir esta expressão do meu vocabulário. Não quero dizer que preciso de amigos; quero dizer que quero amigos, porque sem eles a minha vida perde muito sentido. Ainda assim, mesmo que esta seja a minha vontade, há momentos em que gostaria que alguém, no meio de uma multidão estranha e confusa, fosse meu amigo… isto porque ninguém consegue vencer a solidão.